Em 2014 decidi desenhar. Ilustrar seria, ao mesmo tempo, expiação de um dom e sublimação de realidades fugazes. Porém, não objetivei o puro desenho, mas a combinação entre imagem e palavra. Precisaria, portanto, de um escritor. Falei com o amigo que estudava para o jornalismo; com o que estudava para a comédia; e com o que estudava para os quadrinhos. Como, ocupados com o estudo, declinaram todos, resolvi ser eu mesmo também o autor das palavras. Criei as primeiras peças e publiquei em um blog oculto durante seis meses. Para a minha fruição, a própria publicação bastava; mas, dado ao polemismo de minha arte, do primeiro compartilhamento da página em um grupo do Facebook vieram trezentos e poucos seguidores que encerraram minha silenciosa carreira. Embriagado pela acidez da controvérsia, passei a exercer mal meu dom, e da sublimação do real me vi atolado na baixa política. Abandonei o projeto e o desenho. Desta obra morta, sobrou-me, além de um fantasma já fadado ao esquecimento, o seu nome. Não guardará mais traços e formas do mundo, tampouco metáforas de esfenoides, etmoides e vértebras, mas serve ainda para depositar os fragmentos remanescentes de minha magnum opus fraturada: as palavras.
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Foram muitas as vezes que eu quis me desfazer dela, talvez em número igual ao das que quis trazê-la para mim. Minha história com ela começou em janeiro de dois mil e doze, em um dos cinquenta e poucos filmes que vi naquelas férias. Kostnice foi gravado por Jan Švankmajer em 1970, e consiste numa sequência frenética de imagens acompanhadas de um som que parece o de ossos quebrados e a narração de uma senhora que parece descrever de modo esquizofrênico a igreja de Sedlac construída com os ossos de mais ou menos setenta mil pessoas. Como uma urna capaz de capturar um espírito mórbido, a obra de Švankmajer me encantou. Quando precisei de um nome, não pensei em outro.
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Abandonei a empresa, mas o pio incansável do verbo me forçava a composições de variadas ordens, que redigia sem indagar se isso me valeria vantagens ou desvantagens. Na ilustração, foi bom não ter a colaboração de um jornalista, comediante ou roteirista; meus traços tão tortuosos não honrariam a idéia mais fraca que fosse. Na escrita, a tolerância com a falta de destreza é maior, talvez porque o trabalho de quem escreve é apenas sugerir as imagens que serão criadas por quem lê. Abandonei, portanto, apenas parte da operação; mantive o que antes tentei delegar. Meu blog já não existia, mas eu renovava meu contrato com o domínio por força do hábito há anos. Por outro lado, faltava-me o nome para o novo empreendimento. Demorou alguns anos para aquele estalo que conecta as coisas. E esta é a justificativa e apresentação deste site. Abandonei minha arte visual como um fantasma abandona seu corpo, mas como uma alma que é a forma da matéria é minha escrita, integro-me novamente ao depósito de ossos como uma infestação que se recusa a sair de uma casa tramada demais para mantê-la ali.
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