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Fritando Bacon

O lugar de Francis BaconNeste ano de 2026 lembramos os quinhentos anos da morte de Francis Bacon, pioneiro entre os coveiros que prometeram sepultar o método de investigação escolástico. Como suas contribuições não ultrapassaram as da crítica — ele não realizou descobertas grandiosas como Galileu e Copérnico, nem fundamentou um método influente como Descartes —, é relegado a Bacon, no geral, pouco reconhecimento. Por outro lado, quando se tenta exaltá-lo, a confusão sobre seu papel no contexto humanista do século XVII reforça epítetos duvidosos como “precursor do método científico moderno” ou “pai da ciência moderna”. Há quem vá mais longe, como vi há alguns dias no X: Bacon não seria apenas um pensador paradigmático, mas o homem que mais influenciou nossa vida depois de Jesus Cristo. Deduções e induções equivocadas à parte, é fato que Bacon ajudou na construção do método científico moderno, mas, como alguém teria dito, seu trabalho se assemelha mais a um andaime, no qual construtores sobem para erguer o edifício, do que o próprio fundamento ou pilar da estrutura.

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Francis Bacon aristotélico — A ideia de que Bacon teria trazido uma grande novidade para a ciência ofusca a importância de Aristóteles para o pensamento do filósofo inglês, e, como observa Copleston1As observações de Frederick Copleston sobre Bacon aparecem no volume três de Uma História da Filosofia: do Renascimento a Hume., é provável que nem o próprio percebesse a influência que o estagirita exerceu sobre si. O alegado antagonismo a Aristóteles é baseado, em maior parte, na inversão proposta por Bacon: de uma ciência dedutiva, deveria-se partir para uma ciência indutiva. Para ele, o silogismo aristotélico servia mais para vencer discussões do que para avançar o conhecimento, pois, ainda que apresentasse argumentos com coerência interna, ele poderia estar errado nas afirmações; além disso, a conclusão já está contida na premissa (se todos os homens são mortais, é evidente que Sócrates é mortal por ser homem — não há novidade aqui). O problema da posição de Bacon é que é difícil defender que Aristóteles não previu um modelo mais complexo, que contemplasse o processo indutivo. Em Segundos Analíticos (99b e 100b), ele descreve processos muito parecidos2Aristóteles defende que a demonstração precisa partir de princípios anteriores, estes advindos das sensações. O universal só surge na alma após o nous (νοῦς), o intelecto, apreender de muitas percepções repetidas. Portanto, a ciência aristotélica não defende que é possível construir conhecimento a partir de generalizações estatísticas, mas que só é possível chegar pelos primeiros princípios a partir dos particulares em um processo de indução (ἐπαγωγή). com aquilo que Bacon chamou de novo método. Ao rejeitar a dedução e o silogismo, Bacon propôs um modelo que não poderia criar previsões a partir de hipóteses, algo comum na ciência de hoje. Sendo assim, ele não apenas se equivocou em afirmar que a dedução tinha certa exclusividade no pensamento clássico, como, ironicamente, se posicionou mais distante do método científico moderno do que Aristóteles3Sobre a falsa novidade do método de Bacon indico o incisivo artigo de Robert E. Larsen, The Aristotelianism of Bacon’s Novum Organum. .

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O verdadeiro novum organum — Se por um lado Bacon preferiu a investigação pelos fenômenos sensíveis, o que o aproximou do empirismo, por outro, evitou desenvolver uma abordagem matemática. Descartes foi muito mais radical em sua abordagem, pois, além de propor novos princípios epistemológicos, demoliu todo o conhecimento para iniciar tudo do zero. Em seu anseio por criar a base para um conhecimento mais confiável, inspirado na geometria, a partir de verdades “claras e distintas”, Descartes realizou um grande giro metafísico que mudou os objetivos da investigação ao mesmo tempo que substituiu a perspectiva fundamental: do ser para o eu. Bacon, assim como Descartes, irritava-se com o parlatório silogístico dos escolásticos, mas, diferente do francês, não quis deslocar os princípios do novo método para a matemática, e nem se pode afirmar que versou em especulação metafísica. Preferiu, na verdade, ir direto ao seu ponto: a questão do conhecimento estaria, de fato, no mundo, mas não na abstração dos grandes conceitos universais, e sim na natureza. O trabalho científico deveria ser o de investigar a realidade sensível para descobrir a estrutura das coisas e as leis que regem os fenômenos. Esta é a novidade trazida por Bacon, segundo ele mesmo: um método que levasse o cientista a encontrar a verdadeira finalidade da ciência, o conhecimento da forma da natureza. Mas o que seria essa tal forma? A velha causa formal de Aristóteles, oras.


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Os ídolos têm a dizer — Mesmo se o núcleo do Novo Organum tenha problemas, não devemos esquecer a utilidade da teoria dos ídolos de Bacon. Ela diz que, para eliminar os equívocos, o cientista deve superar quatro espécies de ídolos: os da tribo (idola tribus), os da caverna (idola specus), os do mercado (idola fori) e os do teatro (idola theatri). Os ídolos da tribo advêm da tendência natural humana a acreditar em generalizações e ideias não atestadas. Os ídolos da caverna são crenças individuais a partir de experiências de vida. Os ídolos do mercado são as confusões causadas pela linguagem e a dificuldade em comunicar o mundo real. Os ídolos do teatro são as grandes teorias adotadas não pelo seu valor epistemológico, mas pela influência que exercem no grande espetáculo das discussões. Vê-se que a teoria dos ídolos serve mais para organizar os equívocos do que para revelar entidades ondológicas. Contudo, soa interessante quando pensamos que, quinhentos anos depois, ela continua a fazer sentido a contrapelo do próprio Bacon: as simplificações, preconceitos, confusões linguísticas e suposições pseudo-científicas existem em todo o conhecimento, sobretudo nos herdeiros da epistemologia moderna.

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Organum non tam novum — Não foi só o método indutivo que já havia sido esmerilhado por algum grego da Antiguidade; o método de eliminação de hipóteses também já havia aparecido em Platão. Bacon propôs três “tábuas” para a investigação da realidade sensível: a da presença, na qual se descreveria todas as instâncias (instantiae), ou seja, casos em que a natureza se apresenta; a da ausência, que conteria as informações de onde não há instâncias; e a dos graus ou das comparações, que traria as variações da ocorrência. Após isso, em um processo de eliminação, o cientista poderia chegar próximo da forma da natureza investigada e poderia elaborar uma primeira vindima (vindemiatio prima), isto é, uma formulação prévia da forma que seria submetida à prova por meio de experimentos e de instâncias específicas e selecionadas. O ponto é: o processo de descarte das suposições se assemelha à técnica dialética dos diálogos platônicos, nos quais os interlocutores eliminam as hipóteses equivocadas para ascender a conceitos mais gerais sobre o objeto investigado. Por fim, merece menção também o seu processo de experimentação, que, chegando à lei e a estrutura das naturezas, possibilitaria a mudança dos corpos. Em outras palavras, permitiria criar naturezas que não existem. Neste sentido, não deve ser ignorado a influência da alquimia no novum organum, já que em seus experimentos a manipulação dos elementos visa, especialmente, a mudança de uma matéria-prima a outra. Talvez o destaque para Bacon não esteja na inovação do método, mas na costura de diversas disciplinas que pulsavam no alvorecer da modernidade.

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Como os deuses — A presença do ocultismo no século XVI pode ser percebida claramente pela forma mentis de muitos pensadores do período, e Bacon é um belo exemplar desta categoria. Seu entusiasmo com o experimento e a mudança dos corpos revela a predileção pela manipulação da natureza em detrimento a recepção do conceito pelo intelecto. Em contraponto aos escolásticos, poderíamos dizer que Bacon deseja mesmo era agir sobre e não ser movido por. E esta ação, tão cara à ciência moderna, contém, em si, um desejo primordial por transformar os elementos dispostos pela natureza. Primordial não por ser intrínseco ao homem, mas por responder à promessa da serpente no Éden: — Sereis como deuses! Primordial, enfim, porque se mudam as eras — Antiguidade, Idade Média, Modernidade —, mudam-se os personagens — filósofos, magos, cientistas —, mas não muda a resposta daqueles que desejam reinar: “Sim, eu quero e posso ser como os deuses!”

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Restaurando Bacon — O projeto era recuperar o reinado sobre o Éden. Porém, para transformar um homem nu, humilhado pelo pecado, em um rei, não basta retirá-lo de sua parca tribo e dar-lhe formação de monarca; também é necessário cobri-lo com vestes reais, porque, para pensar e agir como um rei, ele precisa se sentir rei. É aqui há uma inversão bem mais assertiva nas entrelinhas da filosofia de Bacon do que aquela sobre a ciência aristotélica: é a democratização da doutrina do rei filósofo de Platão. Agora não é apenas a elite do pensamento que deseja administrar a sociedade pela razão, mas a humanidade inteira que é chamada a domar o mundo. Ser como deuses. Contudo, façamos um exercício de humildade, e ao invés de nos persuadirmos por tal promessa, busquemos reconduzir Bacon à terra dos homens caídos. Não precisamos recuperar a teoria do filósofo, já superada em seu próprio tempo, mas podemos admirar o escritor que sonhou como homem e professou seu desejo por participar da comunhão com Deus. Quando tomamos a relação que Bacon estabeleceu com a tecnologia em conjunto com as realizações e limitações como pensador, suas ideias se tornam mais vivas e atuais nesta aurora da inteligência artificial. O que estou dizendo é: podemos considerar os conselhos do senhor Bacon desde que superemos os ídolos do mercado e do teatro para encontrá-lo onde ele deve estar: nas entrelinhas.

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“It was great blasphemy when the devil said, I will ascend and be like the Highest; but it is greater blasphemy to personate God, and bring him in saying, I will descend and be like the prince of darkness: and what is it better, to make the cause of religion to descend to the cruel and execrable actions of murthering princes, butchery of people, and subversion of states and governments? Surely this is to bring down the Holy Ghost, in stead ofthe likeness of a dove, in the shape of a vulture orraven; and to set out of the bark of a Christian church a flag of a bark of pirates and assassins.” — Francis Bacon, Of unity in religion, Essays.

 

Notas

  • 1
    As observações de Frederick Copleston sobre Bacon aparecem no volume três de Uma História da Filosofia: do Renascimento a Hume. ↩︎
  • 2
    Aristóteles defende que a demonstração precisa partir de princípios anteriores, estes advindos das sensações. O universal só surge na alma após o nous (νοῦς), o intelecto, apreender de muitas percepções repetidas. Portanto, a ciência aristotélica não defende que é possível construir conhecimento a partir de generalizações estatísticas, mas que só é possível chegar pelos primeiros princípios a partir dos particulares em um processo de indução (ἐπαγωγή). ↩︎
  • 3
    Sobre a falsa novidade do método de Bacon indico o incisivo artigo de Robert E. Larsen, The Aristotelianism of Bacon’s Novum Organum. ↩︎
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