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“Os intelectuais e o poder”, de Foucault e Deleuze, e a militarização da teoria

Uma teoria para a guerra — Logo no início do famoso diálogo Os intelectuais e o poder1 Disponível em Microfísica do Poder, traduzido por Roberto Machado., entre Michel Foucault e Gilles Deleuze, o primeiro conta que um conhecido maoísta estranhou o apoio que o segundo demonstrou pelo movimento chinês. Para o militante comunista, era compreensível Sartre estar ao lado deles, e até mesmo Foucault, mas a postura de Deleuze não fazia sentido. Ao invés de dizer que apenas estava sendo pragmático, o autor de Mil Platôs põe para fora uma bela resposta sobre como percebe a relação entre teoria e prática. Segundo Deleuze, em tempos idos, a prática consistia na aplicação da teoria ou numa consequência desta, ou ainda fornecia inspiração para ela. Porém, neste antiquado modelo, as teorias totalizantes encontravam sempre “um muro” na realidade, já que o contexto social é dinâmico. Além disso, “aqueles que agem e lutam” não eram mais representados por intelectuais — nem por partidos ou sindicatos — que outrora elaboraram teorias. Por isso, para Deleuze, era fundamental que, na rota final do século XX, a teoria fosse mais fragmentária e parcial, para ser, por consequência, mais segmentada e aplicável, não para “totalizar”, mas para “se multiplicar e se multiplicar”; já a prática, então, teria a tarefa de transpor o “muro” da realidade. A justificativa é a de que, em um mundo onde o intelectual não mais representa e só existe ação — seja prática, teórica ou de “revezamento em rede” —, seu instrumental deve ser preparado para a ação. A teoria seria uma “caixa de ferramentas”: “Nada tem a ver com o significante… É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma”. Em outras palavras: boa teoria não é a que mais se aproxima da verdade, mas a que pode ser usada como arma; às favas o que ela diga, contando que mobilize. O problema implicado por esta proposta deleuziana é justamente a da finalidade: a eficiência da teoria não estaria mais na força lógica dos pressupostos, mas na capacidade de militarização da comunicação. Como a luta é contra o “poder”, a teoria não se torna apenas uma caixa de ferramentas; na verdade, ela se assemelharia muito mais a um cartucho de projéteis linguísticos a serem disparados contra os adversários. Se na metáfora médica a teoria seria como um bisturi que exige técnica de quem o opera, na do cenário bélico pouco importa a destreza do soldado, pois o objetivo passa a ser causar dano ao corpo, e não salvá-lo. Não é à toa que Deleuze hoje pode muito bem servir aos fins de um Nick Land2Nick Land e seu parceiro Curtis Yarvin são os teóricos por trás do Iluminismo das Trevas e outras ideias radicais que influenciaram tanto a alt-right americana quanto a brasileira. É conhecida a grande influência não só de Gilles Deleuze e Félix Guattari, mas também de outros pós-estruturalistas como Jean Baudrillard e François Lyotard, sobre Nick Land e o grupo chamado Cybernetic Culture Research Unit (CCRU), do qual também fez parte Mark Fischer. e de sua teoria distópica, pois se fazer teorias é fazer armas, nada impede que sua causa final seja não a da resistência, mas a da destruição.

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O intelectual guerrilheiro — Foucault concorda com Deleuze sobre o papel do intelectual. Se outrora este personagem social estava “um pouco na frente ou um pouco de lado” para representar as pessoas, hoje este papel é obsoleto, pois as “massas sabem perfeitamente” o que querem. Porém, por atuar na ordem do saber, onde é “objeto e instrumento”, o intelectual pode lutar contra “as formas de poder” por meio da “verdade” (aqui aspas dele) e da “consciência” (aqui também aspas dele) do discurso. O que Foucault está dizendo é que, ainda que a teoria não dê conta de expressar uma possível prática totalizante, ela é, em si, a prática; mas uma prática local e regional. A luta desta teoria-prática não é a da tomada de consciência — pelo esclarecimento das massas —, mas a da tomada do poder, “ao lado de todos aqueles que lutam por ela”. A ação intelectual por meio da sua produção teórica, que ele denomina como “sistema regional” desta luta, tiraria o intelectual da retaguarda. Desse modo, Foucault anseia que sua classe tenha mais protagonismo — uma resposta distante à décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach — por meio de um espírito de guerrilha-de-gabinete. Dada sua redução absoluta ao valor de uso, esta teoria da teoria — que não mistura reflexão e prática, mas abole a primeira em detrimento da segunda, uma vez que os princípios revolucionários já estão dogmatizados — só deve ser ouvida se for útil para derrubar um governo. Foucault e Deleuze estão dizendo que, se é impossível representar a verdade total com ajuda de um método especulativo, devemos abandonar a empresa e aceitar que uma só verdade total importa: a da luta contra “o poder”. Mas se não há nem mesmo uma verdade que possa, por exemplo, distinguir as formas e naturezas de poder, para que serviria a teoria de trincheira, afinal, senão apenas para destruir qualquer empreendimento civilizatório humano?

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Puxando os fios das massas — Numa primeira vista, a mensagem d’Os intelectuais e o poder é a de que a ação intelectual consiste em “fazer com que se fale”. Deleuze menciona que é indigno falar por alguém: as pessoas deveriam falar, e a partir delas haveria a mudança, e não a partir da representação. Ademais, já existe uma revolta da população contra os sistemas judiciários e a forma com que foram criados e montados. Foucault menciona que o contato com os presidiários lhe mostrou que eles mesmo tinham uma “teoria” sobre a justiça, sobre penalidades, prisões, e que não era uma teoria sobre delinquência, mas contra o poder. Para ele, as prisões seriam o ambiente onde o poder mostra sua maior força, sua maior representação, pois ali ele é justificado em estado puro, de luta do Bem contra o Mal; da ordem contra a desordem; o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro em suas dimensões mais excessivas e se justificar como poder moral. Há, nas prisões, “não apenas a puerilidade dos exercícios do poder, mas o cinismo”, feito “da maneira mais arcaica, mais pueril, mais infantil”. Ninguém poderia duvidar da ojeriza de Foucault sobre os presídios, mas seria interessante que se pudesse contextualizar — uma vez que as teorias pendem ao “local” pelo dinamismo social, como os autores insistem —, sempre que possível, a massa carcerária da França de meados do século XX. Na conversa genérica sobre prisões, podemos pensar com brasileiros do início do século XXI, imaginando celas lotadas, com criminosos de todo azar, de ladrões a latrocidas, passando por faccionados do grande crime organizado — que minha consciência, quiçá alienada, acredita representar um poder ainda mais desavergonhado e em puro do que o do Estado —, mas talvez, para estes pensadores franceses, a conversa girasse em torno das prisões que eram receptáculos de uma lei excessivamente rigorosa e conservadora. Há um grande perigo em esquecer a ressalva sobre os limites da teoria e flertar com as pseudo-libertárias ideias sobre prisões acreditando que nossos senhores estejam falando de uma só realidade, pois o homicida não está mesmo nível de alguém que foi preso nos anos sessenta por ser homossexual. É esta a chave de leitura deste diálogo de Foucault e Deleuze, a da suspenção da descrença, como num texto ficional, para encontrar a coerência interna: se as verdades não são totalizantes, não somos obrigados a ouvi-los; se os intelectuais devem fornecer meios de ação para os oprimidos, devemos adaptar às realidades nacionais de opressão; e se a teoria é uma caixa de ferramentas, talvez a de Deleuze e de Foucault não nos ajudaria no país que estamos tentando construir.

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Teóricos confusos — Se o diálogo entre Foucault e Deleuze é sobre os intelectuais e o poder, o ponto alto da conversa é quando o líder de uma geração de tagarelas políticos assume que não entende o que é o poder. Para Foucault, “foi preciso esperar o século XIX” para saber o que era exploração, então sabe-se lá quando a dificuldade de compreensão da natureza do poder será superada, já que  as noções antigas não são claras, e “Marx e Freud não são suficientes para se pensar na natureza e no fim do poder”. Deleuze aborda o problema levantando a hipótese do interesse guiado pelo desejo. O marxismo coloca o interesse da classe dominante como força em direção ao poder. Mas em um nível anterior, há o desejo de se guiar pelo poder, o que explicaria porque reformas, mesmo em sindicatos ou partidos, que falam em nome da classe, podem sucumbir em um reacionarismo. Ele faz notar a apreensão global que tem o poder, de modo que todas as formas de repressão se aglutinam no seu exercício. Onde há poder ele é exercido, e ele está em pequenas categorias de relações. Por isso, os intelectuais não podem organizar um “contra-poder”, uma teoria fechada e organizada hierarquicamente, mas devem criar bases, ligações laterais que se cruzam, como uma rede, de fundo popular. Ambos concordam que essa é uma tarefa difícil, e Foucault acredita que é preciso inverter essa noção e apontar para o poder, comunicá-lo, fazer ser ouvido. Segundo ele, há uma relação entre desejo e poder é ainda pouco conhecida. Nem sempre quem exerce deseja exercê-lo, e vice-versa. Em um estado totalitário, a massa pode desejar que o poder seja exercido, ainda que sobre ela. Ele lembra os tribunais populares da Revolução Francesa, que, para ele, surgiram como uma tentativa de retomar uma justiça justa, um juiz justo. A nova teoria seria uma forma de entender essas relações. O que é deveras impressionante é a capacidade deles teorizar tanto sobre algo que assumidamente não dominam e a necessidade por esta teoria. Diante da dúvida, e se há grande necessidade de ajudar os oprimidos, seria bem mais fácil apenas encarar o poder como uma realidade não contornável e que, por isso, ao invés de compreendê-lo e dominá-lo como se uma ciência matemática fosse, pudéssemos apenas formar governantes íntegros, porque, apesar de toda rebimboca da parafuseta teórica, é muito difícil defender que, no fundinho do nosso coração, não sabemos o que é certo e o que é errado.

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A velha “novidade” — Todo o movimento retórico de Deleuze e Foucault acerca do papel dos intelectuais precisa ser entendido às claras: há uma teoria por trás e, ainda que pareça “pós-moderna”, ela tem seu espírito carcomido pela decadência porque marxista: os teóricos de verdade pertencem à classe que fará a revolução. Este é um texto de estratégia, não de filosofia, e por isso Foucault afirma que a tirania exercida como “dominação serena do Bem sobre o Mal, da ordem sobre a desordem” torna o poder fascinante. Já Deleuze, que jamais deixaria Foucault brilhar sozinho se o objetivo é ser extravagante, não hesita em comparar crianças a presidiários, uma vez que as escolas, para ele, são sistemas similares a prisões. Questionado sobre como conceber as relações transversais, ou seja, as redes que propiciariam a “luta”, Foucault explica que a saga proletária contra a ordem capitalista exigiria uma posição “ao lado” dela, isto é, uma luta com método proletário e uma estratégia proletária. Já a luta contra o poder seria diferente, pois ela pode partir de uma ação isolada, de qualquer um que está sob sua opressão. Mulheres, prisioneiros, soldados, enfim, todos podem partir para essa luta e se tornarem revolucionários. Essa também é a luta proletária, pois seria perpetrada contra o capitalismo, mas, ressalte-se, não teria como base em uma teoria totalizante, da “verdade”, e sim uma luta contra todas as formas de exercício e aplicação do poder mesmo, e isso daria origem a uma “generalidade”. Deleuze conclui que as defesas e ataques parciais, onde quer que o poder seja aplicado, é uma luta que se une à luta operária. Dito isso tudo, apenas recoloco o problema para a época em que falar em proletariado pode ser considerado anacrônico: qual é o papel dos intelectuais diante do poder? reduzir a teoria ao status de coquetel molotov para ser utilizada por todo tipo de déspota aventureiro em sua tomada de poder? ou o de tentar explicar o mundo, mesmo que seja impossível “totalizá-lo”? Se é impossível abarcar toda a realidade, ao menos é fundamental usar a teoria mais para esclarecer do que para confundir.

Notas

  • 1
    Disponível em Microfísica do Poder, traduzido por Roberto Machado. ↩︎
  • 2
    Nick Land e seu parceiro Curtis Yarvin são os teóricos por trás do Iluminismo das Trevas e outras ideias radicais que influenciaram tanto a alt-right americana quanto a brasileira. É conhecida a grande influência não só de Gilles Deleuze e Félix Guattari, mas também de outros pós-estruturalistas como Jean Baudrillard e François Lyotard, sobre Nick Land e o grupo chamado Cybernetic Culture Research Unit (CCRU), do qual também fez parte Mark Fischer. ↩︎
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