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A estética de Shaftesbury ou Do ente à morte

A arte morta e a muito morta — Cada vez mais rodeados pela arte robótica, é saudável nos perguntarmos em qual grau de morte se encontra a produção criativa neste século. É evidente que a produção gerada por modelos de IA causam um incômodo e deveriam ser categorizadas; mas, da mesma forma, se não dispomos de um modelo teórico unânime para traçar as fronteiras da arte, tampouco a maioria das vozes parece perceber o que precisa ser restaurado e o que precisa ser descartado. Tais propostas causam calafrios a quem, cujas velozes e incansáveis sinapses conectam de pronto a arte à hipótese da beleza, e esta, por sua vez, a uma turva ideia de “a ditadura do belo”, que imporia uma determinada “verdade” e, por consequência, um déspota ainda mais terrível: a moral antiga. “Quid est veritas?”, perguntam os críticos, e aos tais é importante lembrar a natureza da pesquisa. Tal como alguém que caminha e necessita escolher uma via quando surgem as bifurcações, é preciso coragem para prosseguir, ainda que este caminho leve ao abismo ou à uma luz tão intensa que nos cega, como o de Saulo em Damasco. Esta é a natureza da investigação; diante do fosso do nada, ao qual o caminho escolhido levou, há de se escolher entre voltar, para tomar outra via, ou avançar para a morte ou para o declínio psíquico; porém, a queda retira o sentido de qualquer necessidade investigativa e o mais natural — para não dizer lógico, já que este instrumento não tem poder na singularidade do vazio — seria deixar para lá a busca por verdades, sejam elas provisórias, dimunitivas e plurais, seja única, eterna e com vê maiúsculo. E, se a vida te colocou em movimento por estas veredas, com base na minha experiência de viajante, recomendo sempre investigar.

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Baixando o nível — Diante da incerteza, talvez devêssemos fazer como Descartes e ir para o que deveria ser o início da investigação para criar este conhecimento mais sólido que buscamos. Porém, muito mais humilde, não deveríamos demolir tudo em busca da desejada certeza clara e distinta; não, somos mais limitados, e propomos apenas voltar algumas casas e perguntar para os primeiros professores desta disciplina. Platão dizia que a arte está “três níveis” distante da realidade. Existe a ideia — a realidade plena e inteligível —, a imitação da ideia — o simulacro sensível no qual habitamos  —, e a imitação da imitação da ideia — a arte. Seguindo esta tradição metafísica e já inserido no debate estético da modernidade, Shaftesbury, no século XVIII, categorizou a beleza contida no universo em três grandes ordens ou graus: as formas mortas (dead forms) — objetos que receberam forma estética, mas não contêm, em si, ação ou inteligência —, as formas que formam (forming forms) — as mentes inteligentes que podem criar as formas mortas —, e a forma que forma as formas (supreme forming form) — a própria mente suprema e divina que molda as mentes humanas e constitui o princípio e a fonte original da beleza e da harmonia. Remeto a Shaftesbury para colocar em frente ao ponto de luz a questão: como distinguir uma forma morta feita pelo homem (um artifício estético) de uma forma morta feita pela inteligência artificial? Ou, nos termos platônicos, a obra de arte de IA é um outro tipo de mimesis de terceiro grau ou está a um quarto grau de imitação? É possível, afinal, falarmos que se trata de arte? Última pergunta, em suma: o verdadeiro problema é o do conceito de arte ou de sua estranha falta de ser? Parece-me, como é natural e esperado, que será impossível escapar da discussão do belo como ente e realidade do mundo, ainda que boa parte de todo mundo não queira que toquemos neste assunto.

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Belo e invencível — Colocada desta forma, a questão incitaria dúvidas fundamentais: “por que esta conversa agora? não deveríamos apenas encontrar o que é arte dentro de suas delimitações perceptíveis, ou ainda tomar um conceito como válido para determinada função, não advogando em prol dele como se existisse de fato? ou, para ceder às categorias, não poderíamos apenas analisar os entes das obras em si, ao invés de nos erguemos para uma ontologia primeira da arte?”. É compreensível que perguntas assim se levantem logo. O problema é que alguém que queira demolir tal edifício das artes do belo encontraria uma construção infinita: o belo, enquanto ordem, acaba se aproximando da matemática, da proporção, da hierarquia visual. Convencer de que o belo é relativo, na prática, é tentar convencer que um bosque em plena estação primaveril está no mesmo nível estético de outro que foi completamente devastado pelo fogo. Talvez isto tenha sido esquecido nas discussões recentes, bastante centradas no próprio umbigo: quando falamos em belo, falamos em belo, não em produção artística, “corpos”, de afetos e coisas deste gênero. Eu não queria estar na pele de quem declarou guerra contra esta implacável forma de realismo.

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O bom, o mau, o feio e o imoral —  As ideias de Shaftesbury sobre estética são dessas que tocam em feridas grotescas da estética contemporânea. Para ele, há uma existência real do belo, e disso se conclui que, independentemente da sua opinião, há bom gosto e mau gosto. Anthony Ashley-Cooper, terceiro conde de Shaftesbury, não é tão lembrado como Kant e Hegel neste quesito, mas escreveu o livro mais lido do século XVIII, Characteristics of Men, Manners, Opinions, Times, de 1711. Shaftesbury fez o que podia ser feito: embarcou na renovação do pensamento, mas sem renunciar todo o pensamento clássico. Esta ponte foi simples: falou que o belo é real. Shaftesbury não apenas aponta para a necessidade de certas regras, algo já comum entre os gregos, mas para a complementariedade entre mente e objeto de contemplação. O intelecto humano se debruça sobre o que é belo, e, de modo colaborativo, garantem o senso que será objeto de crítica e do julgamento do gosto. Este ato é um sentido refletido (reflected sense) realizado no ato contemplativo. É perceptível a influência do realismo aqui: existe o ente (belo) e o intelecto que o capta e lhe garante o sentido.

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A disciplina do belo — Não adianta o quanto tente se demolir a conexão entre moralidade e beleza, ela sempre surge — na política, no aspecto moralizante de muitas peças do cinema progressista, até nos memes (quem se lembra do “belo e moral” para exaltar uma postura conservadora?) —, tornando-se um desgaste para aqueles que tentam desvincular as duas ideias. O trabalho de alguém que se opõe ao belo conectado a outra coisa, ou ainda que tente mudar o sentido do que seja belo, é um trabalho que nunca chegará a vitória, e para cada dez golpes desferidos, cambalear próximo ao nocaute por uma questão simples: as pessoas acreditam que o belo é bom, e aparentemente não porque a elite, a superestrutura ou qualquer coisa assim disse, mas porque elas apreciam. Shaftesbury vai além e identifica o belo com o bom, na verdade, para ele, belo e bom são uma coisa só. Sendo assim, é também um ato moral refinar o gosto, pois a partir da melhoria — trabalho, diga-se, para uma vida toda — do senso estético, têm-se um refinamento total na pessoa.

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Ter olhos para ver — A estética como disciplina filosófica — o que parece ser esquecido hoje — exige tal tipo de investigação. Não digo que poderíamos nos debruçar como uma teoria total de Shaftesbury, mas no ato de especulação metafísica que se solidifica diante da percepção de modo mais convincente. Assentar teorias fora desse aspecto podem parecer mais verossímeis, desde que tomadas dentro do próprio conjunto fechado de um determinado pensamento irrealista. É a estrutura que se referencia a estrutura. E a estética, como disciplina, volto a dizer, demanda este olhar para o mundo, e não apenas como o pensador pensa o belo, mas como os humanos o pensam. Cabe se perguntar: meu vizinho, o motorista do uber, minha vozinha, enxergam o belo assim? Nesse sentido, por mais assustadora e ultrapassada que possa parecer a metafísica, ela é muito mais sólida quando se apresenta neste senso primeiro da verossimilhança e percepção. Se pareço aristotélico ou escolástico demais, não é proselitismo realista: não fui eu quem fiz as regras, e o povo comum do seu entorno talvez concorde comigo..

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Em busca do ente perdido — Diante da IA, é bem mais simples ser realista ou até um fenomenológico: há intencionalidade na arte humana. Por mais que as propriedades sensíveis da arte da máquina sejam indistinguíveis, não se trata da arte porque a arte é sobre expressão, e não sobre a capacidade de expressão. Se descobrimos a arte feita pela máquina, em termos ontológicos a coisa muda: seu autor não vive em carne ossos e sangue como eu. Artificialidade, o quarto grau platônico? Nesse sentido, para responder provisoriamente a questão, e uma arte não apenas morta, mas muito morta. Isso porque, se atribuirmos a inteligência à IA, estaríamos incorrendo no mesmo erro de Turing: se não há diferença entre a ação da máquina e da humana, existe inteligência equiparativa. Porém, duas coisas indistinguíveis em seus fenômenos observáveis não significam que são iguais. Pensar vai além de executar tarefas parecidas com um humano; uma máquina pode imitar muito bem o humano e não ter qualquer outra habilidade. O que difere a arte humana e maquinaria é, então, o seu ser: o homem produz arte por meio de signos históricos, culturais e antropológicos. A IA produz arte por combinações numéricas de algoritmos que se simulam o produto final da arte humana. Contudo, por mais elevada arte e próxima de Michelangelo reproduza: é uma arte morta, muito morta. Mortinha da silva.

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